Um dos destaques da Bienal Internacional do Livro de São Paulo 2026, em setembro, será o lançamento da obra “Resiliência e superação – Jornada de quem enxerga além”, que tem entre os seus seis autores os pedagogos e ex-alunos do Cederj, com deficiência visual, Ricardo Motta e Sergio Balsante. O livro será apresentado inicialmente na versão em Braille, e vai ganhar posteriormente uma edição digital (e-book) em data ainda não definida pela editora.
A publicação reúne textos de escritores cegos ou com baixa visão e foi produzida pela editora Novos Autores do Brasil, com o objetivo de abordar as histórias de superação e os desafios enfrentados por pessoas com deficiência visual. O lançamento ocorrerá no dia 9 de setembro, durante a Bienal, na capital paulista.
Ricardo Motta, 46 anos, se formou em Psicologia pela Universidade Estácio de Sá e graduou-se em 2025, em Pedagogia pela UERJ, no Polo Cederj de Belford Roxo, na Baixada Fluminense. Ele atua na área de psicologia escolar e participou como autor de dois livros, um deles é “Visionários”, produzido por Luciana Perdigão, coordenadora do Núcleo de Acessibilidade e Inclusão (NAI) da Fundação Cecierj. O outro é a obra “Polos originários”, editado pela Fundação Educacional e Cultural de Nova Iguaçu (Fenig), no qual publicou o poema “Quem eu sou”.
Para o livro que será lançado na Bienal, Ricardo escreveu o artigo “Aprendendo a ver o mundo com outros olhos”, no qual ele fala da sua própria história. “Do meu período escolar, das dificuldades que eu tive por perder a visão, das adaptações que eu tive que fazer para continuar estudando. Cito também as pessoas que me auxiliaram, principalmente os meus colegas de turma, que passaram a me ajudar quando um dia percebi que estava perdendo a visão, porque olhava para o quadro e já não enxergava claramente as anotações do professor”, contou.
Quando começou o curso de Pedagogia na UERJ, Ricardo descobriu que estava cego, devido a uma retinose pigmentar, que é uma doença degenerativa que produz manchas na retina e faz com que a pessoa perca a visão gradativamente. Com o apoio do NAI, ele contou com ajuda para adaptação aos materiais de estudo. Tudo isso está relatado no artigo que Ricardo escreveu para o livro. Desde as suas dificuldades para se inserir no mercado de trabalho, passando pelas dificuldades de relacionamento.
“As minhas dificuldades de encontrar uma pessoa que me aceitasse, por causa de preconceito e discriminação. Eu termino o artigo com uma mensagem para incentivar as pessoas com a mesma deficiência que eu para que não desistam. Por mais que seja difícil não desistam dos seus sonhos. Essa é a mensagem que eu passo no texto”, explicou Ricardo, que também falou da sua expectativa com a Bienal. “Eu estou muito feliz de ter a oportunidade de participar de um evento internacional tão grandioso como a Bienal de São Paulo, que reúne vários autores renomados. Essa é a minha primeira vez, mas espero poder participar de outras”.
Importância e representatividade
No texto “Para além do breu”, Sergio Balsante, 57 anos, relata a sua trajetória depois de perder a visão, aos 40, em decorrência de uma meningite. A narrativa acompanha suas etapas de reabilitação física e social, o aprendizado de ferramentas como o Braille e a bengala longa, e a busca contínua por qualificação. “O objetivo do livro é que as nossas histórias sirvam de inspiração para pessoas que estejam passando por uma situação como a nossa percebam que não existe final de vida enquanto não aparecer a morte. De que tudo é possível e capaz de acontecer, se a gente tiver um propósito, um sentido para a vida”, afirmou.
Sergio disse que está animado e consciente da importância que a Bienal representa. “Todo mundo sabe o peso que tem para as possibilidades de a nossa fala ter um alcance maior. Ou seja, ir além do grupo de pessoas cegas. Para que o pessoal da educação possa ler as nossas histórias e, a partir dessa leitura, tenha a noção da trajetória das pessoas cegas. É uma ótima oportunidade de comunicação, que dá visibilidade para eu poder contar minha história e ela servir não só para pessoas cegas. O livro vai contribuir para se tentar mudar a atitudes com relação às pessoas com deficiência visual, evitando o capacitismo, a segregação, a discriminação e tudo que vem junto com a cegueira”.
Esforço e dedicação
Sergio afirmou que se recusa a cumprir o papel de vítima. Revelou que depois que perdeu a visão encontrou uma força que não imaginava que tivesse. “Eu consegui me enxergar depois que perdi a minha visão física. Parece contraditório, mas é isso. Antes de ser cego eu não acreditava, por exemplo, que seria capaz de passar no Enem”, explicou.
Amparado na resiliência e na tenacidade, ele foi aprovado no exame cerca de quatro anos depois de ter ficado cego, ingressou na Faculdade de Tecnologia da UNIESP, em São Paulo, onde morava, mas não concluiu a graduação. Veio para o Rio de Janeiro, onde fez curso de Massoterapia no Instituto Benjamim Constant.
Depois da pandemia da Covid-19, em 2021, Sergio foi aprovado no Vestibular Cederj, no curso de Pedagogia, da UERJ, que ele concluiu no final de 2024, no polo localizado no município de Itaguaí (RJ). Desde então, ele vem acumulando conquistas acadêmicas, publicações e aprovação em concurso público.
Motivo de orgulho
“Acompanhar a evolução do Sérgio, desde o seu ingresso no curso de Pedagogia até a publicação do seu texto no livro na Bienal de São Paulo, é um motivo de imenso orgulho para nós. O NAI (Núcleo de Acessibilidade e Inclusão) testemunhou a trajetória de um homem resiliente, criativo e generoso, sempre pronto a apoiar colegas que trilham caminhos parecidos”, afirmou Luciana Perdigão. “Ver o Sergio participar de um evento tão expressivo como a Bienal é a consagração do seu talento e reafirma o poder transformador da representatividade para a comunidade do Cederj, especialmente para os nossos estudantes com deficiência visual”.
Ao comentar também participação de Ricardo Motta na Bienal, a coordenadora afirmou que “é motivo de profunda alegria e celebração” para o NAI. “A trajetória dele no curso de Pedagogia, no Polo Belford Roxo, foi uma verdadeira escola para todos nós. Guardamos com muito carinho a parceria com a sua tutora de apoio, a Maysa, e momentos verdadeiramente marcantes, como os desafios superados na disciplina de Libras — adaptada de forma tátil e com descrições minuciosas das configurações de mãos nas interações on-line”, afirmou. “Ver o Ricardo assinar um capítulo deste livro consagra a sua caminhada, reforça a riqueza do aprendizado compartilhado e reafirma a potência da representatividade dos nossos alunos com deficiência visual na educação superior”.
Em resumo, os artigos de Ricardo e Sergio mais do que relatos pessoais, destacam o papel da fé, da educação e da atitude diante das adversidades, servindo como inspiração e prova de que as limitações físicas não impedem a realização de sonhos nem a reconstrução de uma vida plena.
Para adquirir o livro na versão em Braille os interessados deverão acessar o site da Editora Novos Autores do Brasil e clicar no link disponível para a compra da obra
Serviço
Evento: 28ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo
Local: Distrito Anhembi (Av. Olavo Fontoura, 1209 – Santana, São Paulo – SP)
Datas: 9 de setembro de 2026
Atividades previstas: lançamentos de livros, sessões de autógrafos, networking e encontros com escritores e leitores independentes associados à editora.





