Este dossiê tem como objetivo atrair e publicar pesquisas, ensaios e relatos de experiência dedicados a analisar criticamente a integração da Inteligência Artificial (IA) nos processos educativos, em especial aqueles referidos ao ensino e popularização das ciências. São bem-vindas tanto contribuições originárias de pesquisas empíricas quanto aquelas destinadas a problematizar o arcabouço teórico-metodológico desses campos do saber diante das aplicações da IA. Com isso, pretende-se que o dossiê se configure em espaço de discussão sobres os amplos processos de negociação, regulação, resistência e (re)produção de saberes desencadeados por essas ferramentas.
Partimos do entendimento de que a IA não é uma ferramenta neutra, mas um artefato sociotécnico impregnado por visões de mundo, projetos políticos e epistemologias específicas, não raramente alinhados à interesses produtivos e/ou nacionais. Por outro lado, reconhece-se que uma apropriação crítica da IA pode colocar em cena outras possibilidades de produzir e partilhar conhecimentos, fortalecendo a ideia de que a tecnologia deve operar com e não sobre os sujeitos, em suas singularidades e potencialidades, em perspectiva verdadeiramente emancipatória. Nesse sentido, integrar criticamente a IA nos processos educativos e de divulgação da ciência não se trata apenas de um gesto de modernização ou adoção acrítica de novidades tecnológicas, mas, sim, de uma complexa revisão dos próprios critérios que definem o que é considerado conhecimento legítimo, como se produzi, qual a fonte de sua autoridade e como se dá a mediação pedagógica.
Portanto, investigar os entrelaçamentos da IA com o ensino de ciências e a divulgação científica é um modo de compreender o impacto da tecnologia nas transformações nos cotidianos educativos, permitindo perceber em que medida a aprendizagem e a comunicação do conhecimento são processos singulares socialmente reconfigurados pelas lógicas algorítmicas. Com isso, esperamos que os trabalhos submetidos a este dossiê contribuam, por um lado, para superar previsões apocalípticas, excessivamente pessimistas sem cair, por outro, em explicações simplistas e tecno-otimistas ou transumanistas sobre o papel da IA. Contrariamente, espera-se que este dossiê substitua tais leituras imprecisas por modos de compreensão complexos sobre como as redes de práticas, conhecimentos, valores e assimetrias de poder operam através das novas tecnologias.
Assim, convidamos autores de todas as áreas a submeter trabalhos que, de alguma maneira, contemplem, entre outros, pesquisas que:
- abordem, de maneira fundamentada teórica ou empiricamente, a IA para além de uma ferramenta neutra, analisando-a como um constructo sociotécnico com implicações epistemológicas e políticas;
- destaquem pesquisas e/ou experiências em que o usar (ou recusa) da IA, revele outros modos de produzir, ensinar e divulgar conhecimentos científicos necessários às formações do educando;
- tragam discussões metodológicas sobre as diferentes formas de investigar os impactos, os usos e as aproriações em torno da IA em contextos de ensino e divulgação científica;
- descrevam processos históricos de como IA está a reconfigurar os currículos de ciências e os modos de acesso ao conhecimento científico;
- problematizem o papel da IA na formação docente e na formação de divulgadores científicos, pensando com e sobre estas tecnologias;
- pensem a temporalidade da IA (como a aceleração e a previsibilidade) em contraste com os tempos plurais da aprendizagem, da experimentação e da reflexão crítica humanas.





