Elas chegaram ao museu carregando tabuleiros, cartas temáticas, bonecas de pano e muitas perguntas. Na tarde desta quarta-feira (11), o Museu Ciência e Vida, em Duque de Caxias, transformou-se num grande laboratório lúdico. A missão da programação em homenagem ao Dia Internacional de Mulheres e Meninas na Ciência era uma só: apresentar às crianças e jovens da Baixada Fluminense um repertório de cientistas mulheres que a escola ainda não ensina.

“É preciso começar”

Mônica Dahmouche, coordenadora do museu e cientista, acompanhava cada mesa. Para ela, o evento não era apenas uma celebração, mas a continuidade de um trabalho iniciado há oito anos. “Desde 2018, usamos todas as oportunidades para atrair mais meninas para a ciência. Que elas não tenham medo, que ousem, que confiem na própria capacidade. Muitas ficam tímidas porque não têm exemplos. Mas é preciso começar. Para que, no futuro, elas sejam os exemplos das próximas”, afirmou Mônica.

Mônica Dahmouche, professora de física e responsável pelo Museu Ciência e Vida. Foto: Filipe Dutra

Dois jogos, um compromisso

O museu, equipamento da Fundação Cecierj, desenvolve, desde então, projetos de incentivo às meninas nas áreas de exatas. Nesta quarta, além de expor “Elas no Tempo”, mostra que enfoca a trajetória de mulheres laureadas com o Nobel, a programação recebeu o jogo Ciclo do Poder, da Fiocruz, e a contação de histórias da atriz e física Carine Braga, que há anos produz bonecas artesanais de cientistas reais.
Enquanto “Elas no Tempo” apresentava Katherine Johnson, Rosalind Franklin e Mary Anning, o Ciclo do Poder convidava crianças e adultos a ajudar Cris, nome neutro, a passar pelo primeiro ciclo menstrual. Sem tabus, sem vergonha.

Dinamizadoras do Museu Ciência e Vida, apresentando uma das dinâmicas. Foto: Filipe Dutra

Tânia Zaveruchi, pesquisadora da Fiocruz e idealizadora do jogo, explica: “A ideia é combater os mitos sobre a menstruação. Não é porque meninos não menstruam que não precisam ser solidários. O nome ‘Cris’ é neutro porque hoje temos homens trans e pessoas não binárias que menstruam. As conversas que surgem ali, sobre coletor menstrual ou a primeira menstruação, são conversas que normalmente não se tem”, detalhou.

A pesquisadora da Fiocruz e desenvolvedora do jogo “Ciclos do Poder”, Tânia Zaveruchi. Foto: Filipe Dutra

O brinquedo como revolução

No centro do museu, Carine Braga abria seu baú. Dele, saíam não apenas bonecas, mas histórias roubadas do apagamento. “A criança nunca pergunta se uma mulher pode ser cientista. Ela pergunta: ‘Ela descobriu o quê?’. O preconceito não é natural, ele é ensinado. Nossa função é desensinar”, afirmou Carine.
E completa: “Se a gente só oferece bonecas princesas, estamos dizendo que o único destino possível é o castelo. Quero mostrar que o destino também pode ser um laboratório”.

A artista e física, Carine Braga apresentando seu projeto de bonecas artísticas. Foto: Filipe Dutra

Onde a escola não chega
Thayamy da Silva, 17 anos, está no terceiro ano do ensino médio e veio ao museu pelo projeto Minas nas Exatas, da Escola Estadual Círculo Operário, em Xerém. Faz curso técnico em informática e quer seguir carreira em tecnologia. Mas conta que, na escola, nunca ouviu falar de cientistas mulheres. “Na minha escola, a gente só estuda cientistas homens. O único lugar que vi falarem sobre mulheres foi no projeto da Mônica. As pessoas precisam conhecer o que essas cientistas criaram. A gente usa coisas hoje e nem sabe que foram feitas por mulheres. Isso pode ajudar o futuro. Principalmente o das mulheres.”

Foto: Filipe Dutra

A adolescente, Thayamy Silva (ao centro), participando de uma das dinâmicas. Foto: Filipe Dutra

 

O que uma mãe ensina, e o que o museu confirma

Érica Lacerda Costa, moradora de Pilar, frequentava o museu quando adolescente. Voltou na quarta, com a filha Eloá, 8 anos. As duas jogaram juntas, aprenderam juntas.

Érica Lacerda Costa e Eloá Costa. Mãe e filha compartilhando momentos no Museu Ciência e Vida. Foto: Filipe Dutra

“Sempre falo pra ela: você pode ser o que quiser. Pode ser médica, cabeleireira, o que escolher. Mas é diferente quando ela vê, quando brinca com isso, quando descobre que outras mulheres fizeram coisas incríveis. Aí ela entende que não é só conversa de mãe. É verdade”, disse Érica.
Perguntada sobre o que quer ser quando crescer, Eloá respondeu sem hesitar: “Eu quero ser médica e minha matéria preferida é matemática”.