Iniciativa atende 40 alunos e supera desafios logísticos para garantir acesso à educação a uma comunidade historicamente excluída

A logística é complexa: as aulas presenciais acontecem às quintas-feiras com a equipe saindo de barco às 17h e retornando às 22h, com apostilas e provas impressas. Nos outros dias da semana, o acompanhamento é através de um grupo virtual de mensagens. Assim funciona a escola CEJA Paraty no Saco do Mamanguá, rara formação geográfica no litoral do Rio de Janeiro, uma entrada de mar que invade o continente.

Atualmente, 40 alunos são atendidos no Mamanguá. Uma realização para Gilcimar Corrêa, ex-aluno da unidade com a matrícula de número 35, que sonhava em ver sua comunidade recebendo a mesma oportunidade que teve de concluir os estudos. Nascido e criado no Mamanguá, Gil é de uma família caiçara e interrompeu os estudos na antiga 4ª série. A jornada até a escola mais próxima exigia duas horas de trilha a pé até um ponto de ônibus. Aos 16 anos, percebeu que “não dava para ficar sem estudar” e ingressou no CEJA, onde se formou. No entanto, sabia que muitos moradores não tinham condições de fazer o mesmo trajeto.

“Lá atrás, a oportunidade foi negada para a gente. Mas agora conseguimos chegar no ponto”, diz o ex-aluno e presidente da Associação de Moradores, Gil, emocionado.

“Eles ainda estão se acostumando. Precisamos carregar um pouco no colo”, reconhece Gil sobre o apoio redobrado a esses alunos. Quando o tempo impede a travessia nas quintas-feiras, as aulas migram para uma videoconferência.

Para Keila Oliveira, moradora do Mamanguá, foi a chance de retomar os estudos e dar novos rumos para a vida.

“A escola reabriu o nosso sonho e, como mãe e trabalhadora, estudo à noite e destaco o apoio que recebo dos professores. Nunca é tarde para recomeçar”, incentiva a estudante.

Sonho coletivo

O sonho que começou com Gil, seis anos atrás, recebeu apoio do diretor Victor Hugo Massine, da professora Adriana Soares, coordenadora do projeto, e de todo o corpo pedagógico da escola.

“Quando assumi a direção da escola, começamos a conversar mais de perto com a comunidade. Virou um sonho coletivo”, conta Victor Hugo, responsável pela unidade CEJA Paraty, unidade vinculada ao CEJA Angra dos Reis. “O CEJA está cumprindo seu papel: acolher quem mais precisa”, concluiu.

Para a professora Adriana Soares, a iniciativa vai além da sala de aula. “É uma questão de autonomia e emancipação. Eles precisam entender que são cidadãos com direitos”, afirma. Já Tatiana Lima, que ministra as aulas de História, ressalta a importância de levar o ensino para onde as pessoas vivem.

“Este projeto é um dos mais significativos da minha carreira. Quando conheci o Gil e ouvi sobre a realidade do Mamanguá, entendi que estávamos diante de uma dívida histórica com aquela comunidade. A educação sempre chegou até eles de forma precária e intermitente”, afirma Tatiana, que é educadora há 18 anos.

A Cecierj, administradora da Rede CEJA, é vinculada da Secretaria de Estado de Ciência, Tecnologia e Inovação.

Confira o vídeo no Canal Eureka!: https://www.youtube.com/watch?v=AVqzeilIs4s.