Quem está acostumado a acompanhar eventos ou conteúdos acessíveis já conhece a dinâmica: a tela principal exibe a atração e, no canto, fica um espaço reduzido para o intérprete de Língua Brasileira de Sinais (Libras). No Museu Ciência e Vida, em Duque de Caxias, essa lógica acaba de ser totalmente invertida. O lançamento do projeto Cultura Científica para Todos, viabilizado pelo edital Nossos Museus RJ da Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa (SECEC-RJ), marcou a estreia de uma sessão de planetário inédita, protagonizada por um mediador surdo, uma iniciativa raríssima na museologia brasileira.

Estudantes acompanham a nova sessão inclusiva na cúpula do planetário do Museu Ciência e Vida. Foto: Flávio Carvalho
A iniciativa é fruto de uma parceria direta com a Conecta Acessibilidade. Durante a abertura do evento, a física e diretora do museu, Mônica Dahmouche, definiu a proposta da nova estrutura de atendimento, que tira a comunidade surda da margem e a coloca no centro da divulgação científica:
“A gente está acostumada a ver uma sessão com uma transmissão que tem lá a janelinha com o tradutor em Libras. Não. Hoje, a janelona é para o protagonista surdo, e a janelinha fica com o ouvinte. Hoje é o dia dessa estrela brilhar”, celebrou.

União por uma ciência para todos: representantes da SECEC-RJ, Conecta Acessibilidade e do Museu comemoram o sucesso da nova iniciativa inclusiva em Duque de Caxias. Foto: Flávio Carvalho
O fim do isolamento na hora de olhar para as estrelas
A urgência de democratizar a astronomia não é um desafio exclusivo da Baixada Fluminense, mas uma barreira que planetários do mundo todo ainda lutam para romper. Para a astrônoma do museu e uma das organizadoras da atividade, Carolina de Assis, a impossibilidade de se comunicar plenamente com esses visitantes era um incômodo antigo. Emocionada, ela desabafou sobre a realidade dos bastidores:
“Para nós, que gostamos de planetários e do atendimento, olhamos para o público e era uma mácula muito grande não conseguir enxergar aquele público que vem até você de muita boa vontade, com muita vontade de conhecer. A gente não conseguia apresentar o nosso melhor, que é um direito deles. Então era um sofrimento muito grande, essa é a palavra mesmo, até agora”, disse.

A astrônoma Carolina de Assis, uma das organizadoras da atividade, relata o desafio e a emoção de romper as barreiras de comunicação na divulgação da ciência. Foto: Flávio Carvalho
Essa mudança estrutural foi sentida de perto também por quem antes via a ciência como algo distante. Para o estudante de jornalismo e pessoa com deficiência visual, Diego Ricardo, iniciativas como essa representaram uma oportunidade de aproximar pessoas com deficiência do universo científico.
“Eu fico muito feliz e lisonjeado ao ver essa iniciativa, porque, quando somos PCD, geralmente só temos contato com a ciência na escola, por meio de diagramas e figuras, e os materiais táteis que chegavam eram muito básicos. Hoje, com todo esse material inclusivo, uma iniciativa como essa aproxima as pessoas da ciência e da vida. A gente ganha uma perspectiva e um entendimento mais fortes, além de uma percepção mais ampla. Espero que essa seja a primeira de muitas”, projeta.

O estudante de jornalismo Diego Ricardo compartilha sua experiência sobre o impacto de ter acesso a materiais científicos genuinamente inclusivos. Foto: Divulgação
Importância do projeto
A relevância do projeto como política pública de fomento foi destacada por Lucienne Figueiredo dos Santos, museóloga, Superintendente de Museus da SECEC-RJ e coordenadora do Sistema Estadual de Museus (SIM-RJ). Para ela, o investmento cumpre seu papel mais nobre quando garante dignidade:
“O edital Nossos Museus RJ foi pensado exatamente para isso: para fomentar e apoiar projetos que tragam inovação, democratização do acesso e, acima de tudo, dignidade e cidadania para a nossa população. Ouvir a fala da Carol, ouvir o depoimento do Adilson e ver essa proposta onde o protagonismo é, de fato, de quem deve ser, nos emociona e nos orgulha muito. Acessibilidade, como bem foi dito aqui, não é um favor, não é um anexo, é um direito”, destacou a superintendente.

A diretora do Museu Ciência e Vida, Mônica Dahmouche, e a Superintendente de Museus da SECEC-RJ, Lucienne Figueiredo dos Santos, celebram o sucesso da parceria institucional. Foto: Flávio Carvalho
Um surdo no comando da cúpula: o desafio dos sinais na astronomia
O grande diferencial do projeto e o responsável por dar vida a essa nova dinâmica na cúpula é Adilson Buze. A presença de Adilson na condução da atividade rompe barreiras históricas, já que a contratação e a atuação de mediadores surdos em museus de ciências, espaços historicamente dominados por profissionais ouvintes, é uma realidade extremamente rara no país.

Rompendo barreiras: Adilson sinaliza conceitos astronômicos durante a exibição do vídeo inclusivo desenvolvido para o projeto. Foto: Flávio Carvalho
Embora já trouxesse no currículo uma bagagem sólida em acessibilidade dentro de museus históricos e de arte, esta foi a sua estreia no universo científico. O maior obstáculo para ele, que é surdo, foi a própria falta de vocabulário técnico padronizado em Libras para explicar os mistérios do universo.
“Quando eu fui convidado, pensei: ‘Nossa, que desafio! Astronomia? Planetário?’ Porque a gente sabe que na comunidade surda a gente tem muita falta de sinais na área de astronomia. Muitos conceitos não têm sinais ainda em Libras”, relembrou.

Preparativos para o conhecimento: alunos aguardam o início da atividade inclusiva promovida pelo projeto Cultura Científica para Todos. Foto: Flávio Carvalho
Adilson trabalhou em parceria estreita com Carol de Assis para decifrar conceitos complexos em português, como foguete, nebulosa, gravidade e buraco negro, e traduzi-los em sinais que fizessem sentido puramente visual e tivessem uma identidade linguística própria para os surdos. “Ver que a comunidade surda vai poder vir ao planetário e assistir a uma sessão na sua própria língua, com um surdo mediando… não tem preço, é uma emoção muito grande. É uma quebra de barreiras de verdade”, comemorou o mediador.

Adilson Buze interage com o público escolar, promovendo uma ponte acessível entre a comunidade e o conhecimento astronômico. Foto: Flávio Carvalho
O reflexo no futuro e a ocupação dos espaços
Quem esteve presente na plateia confirmou o impacto real de ver um profissional surdo ocupando esse espaço de destaque. Convidada pela Conecta Acessibilidade para o lançamento, Giovana Bonifácio, que é professora de Libras e estudante de pedagogia, relembrou as frustrações que viveu na infância ao visitar espaços culturais que ignoravam sua realidade e celebrou a representatividade trazida por Adilson.
“Quando eu era criança, eu não tive essa oportunidade. Eu ia aos lugares, aos museus, e eu não entendia nada. Ficava muito perdida porque não tinha acessibilidade, não tinha intérprete, não tinha sinalização em Libras. Olhava as coisas, mas faltava a informação. Ver esse projeto nascer e ver o planetário em Libras, explicado por um surdo, que é o Adilson, mostra para as crianças surdas que estão vindo hoje que elas podem ocupar esses espaços. Que a ciência também é para elas”, afirmou.

Momento de feedback: convidada compartilha suas impressões sobre a acessibilidade e a ocupação de espaços científicos por pessoas surdas. Foto: Flávio Carvalho
Serviço
Com essa proposta, o projeto pretende consolidar uma transformação profunda no espaço do museu, estruturando frentes de atuação bem definidas:
• Sessões de planetário em Libras: Totalmente desenvolvidas por educadores surdos.
• Experiências acessíveis: Estruturadas para que pessoas surdas possam vivenciar o planetário em sua própria língua natal.
• Recursos de mobilidade e comunicação: Permitem que pessoas cegas circulem pelo museu com real autonomia.
• Desenvolvimento de novos sinais: Termos em Libras voltados à astronomia, focando na primeira infância, para crianças de 0 a 6 anos.
Programação das Sessões:
• Terça-feira: 10h15 e 14h40 (público surdo)
• Quarta-feira: 12h30 (público geral)
Informações de Agendamento: Para grupos, escolas ou mais detalhes sobre as visitas, basta entrar em contato com a administração do museu.
• Telefone de contato: (21) 2334-7434





